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O Vasco da Gama é um clube diferente. Sempre respeitou e honrou sua origem e se destacou por representar de forma digna aqueles que descobriram esta terra e aqui se instalaram. Porém, não foi essa a única característica que o diferenciou das demais entidades desportivas locais mas, sim, a luta contra todo e qualquer preconceito. Assim, no início do século passado, comprou uma briga contra a elite da época, que julgava que operários, negros e pobres não podiam participar de uma sociedade esportiva, reservada, até àquela época, única e exclusivamente a ela. E assim o Vasco trilhou o duro caminho da consolidação, com fé em Deus e crença na solidariedade, provando para o mundo que quando muitos pensam da mesma maneira, o objetivo fica ao alcance e o resultado foi a vitória na peleja pela integração sócio-racial que teve como consequência a construção de São Januário, sem nenhuma dádiva governamental.

Nos idos da segunda década do século passado, o Club de Regatas Vasco da Gama já se consolidava como uma agremiação desportiva que andava com suas próprias pernas, uma perna que conseguia vitórias desportivas e outra, enorme, que os incentivava e vibrava com seus feitos. Torcida e equipes não se separaram mais, até que a vaidade superou a solidariedade e o interesse pessoal ultrapassou a vontade coletiva. Daí em diante, conflitos superaram as poucas vitórias. Feitos desportivos passaram a ser usados, sempre, com finalidade de promover pessoas e com objetivo de se perpetuar no poder. Os verdadeiros interesses nunca estão explícitos, sempre envolvidos em uma nuvem de desconfiança. Esta luta política, tal qual a que assistimos no campo político maior, vem se tornando principal fator de afastamento da torcida dos campos e motivo de redução do número de adeptos. Assim como o povo se distancia dos falsos líderes, a torcida se decepciona com os maus dirigentes e se afasta da vida do clube. Às vezes penso que isto é orquestrado por quem se acha dono de um bem que não lhe pertence.

A RUPTURA E O DESMONTE

Não sei como voces avaliam a administração do Club de Regatas Vasco da Gama mas eu não consigo entender como nos transformamos em uma instituição antidemocrática, absolutista e, porque não dizer, elitista. Encobertos por uma projeção pública que os relaciona com o carnaval, com carros de praça ou, simplesmente, nenhum trabalho específico, nossos dirigentes gostam de se misturar aos cidadãos mais simples, como a grande maioria da população brasileira, mas sabemos que preferem coisas e pessoas relacionadas à nobreza. A pergunta está no ar: como renegamos nossas origens e ainda subsistimos, em pleno século XXI? Parecemos um dinossauro caminhando, lentamente, para a extinção.

O símbolo que mais prezamos, a Cruz de Cristo, influencia erroneamente nosso tirano de plantão a adotar princípios de organização tão ultrapassados que envergonhariam os esclarecidos e ilustrados doutores da época dos descobrimentos. Infelizmente o prepotente dirigente ainda não percebeu que sua interpretação de autoridade é equivocada. Os tempos mudaram, os métodos também e ele permanece intransigentemente agarrado a uma âncora de nau soçobrada. Continua avaliando as situações de forma unilateral e pessoal.

Em época de eleição futura, o atual presidente trabalha freneticamente na divulgação de seus atos, com intenção de manter sua base de apoio e, quem sabe, convencer os indecisos. Recebi e-mail com interesse claramente eleitoreiro, demonstrando sua “realizações” no período do seu atual mandato. Tudo parece estar nos eixos, caminhando para uma recuperação financeira… Só não esclarece os motivos de ter adotado as prioridades de pagamento de tais dívidas em detrimento de outras. Assim como não explica os motivos de ter pressionado o “seu” Conselho Deliberativo para desistir da ação de reembolso contra sí, movida pelo seu antecessor, isso sem explicar publicamente em que pé estava o processo. Foi o caso em que o Vasco foi condenado a indenizar o juiz que ele ofendeu em audiência e cuja condenação pecuniária ele pagou com dinheiro do clube. Também não está claro o acerto feito com seu ex vice-presidente de futebol (o Zé do taxi), pseudo credor de um empréstimo vultoso efetuado ao Vasco. No mais, tudo de errado foi culpa do Dinamite. Quem não o conhece acha que ele é marinheiro de primeira viagem e nunca foi responsável por danos anteriores causados às finanças da instituição. Esse trabalho de divulgar por e-mail suas “ações”, endereçado aos possíveis votantes da próxima eleição, faz parte de sua campanha de perpetuação no poder e preparação de manutenção da sua linhagem na sucessão. O filho já foi admitido no Conselho de Beneméritos, sem que eu saiba que grande benemerência ele tenha realizado, que outro vascaíno de pé no chão não tenha realizado por amor ao clube.

Cercado de fiéis seguidores, Eurico cuida de eliminar sombras à sua onipotência, reduzindo os demais vice-presidentes a meras figuras decorativas que se submetem às suas vontades. Aqueles que demonstram iniciativa, ele “incentiva” a se afastar da direção colegiada. Assim, desculpas como “carnaval” e “dedicação a seus negócios pessoais” servem como justificativas para sumir de cena. Contar a verdade, nunca!

A VERDADEIRA TORCIDA, DIMINUI

Nossa verdadeira torcida ainda acredita nos princípios de lealdade, fidelidade, iniciativa, criatividade, audácia e perseverança que nortearam as ações do grande navegador Vasco da Gama e, talvez por isso, nossos fundadores tenham dado ao clube o nome do ilustre cidadão português. Não só por sua origem, mas também pelo exemplo de profissionalismo, reconhecido historicamente. Por deter conhecimento avançado sobre várias matérias e assuntos de relevância para a época (matemática, cosmografia, geografia, navegação, etc.) e com apoio das brilhantes mentes da época, nosso Almirante ajudou a colocar Portugal em lugar de destaque entre as nações que disputavam a hegemonia do comércio internacional. Não se destacou apenas pela coragem em enfrentar o desconhecido mas, também, por acreditar nos avanços que as grandes navegações representariam para o comércio da pátria mãe e o futuro do mundo.

Ao contrário dos esclarecidos visionários da época, nosso presidente (se por lá tivesse encarnado), defenderia aberta e furiosamente a teoria de que a Terra era plana e não redonda, como devem acreditar seus atuais bajuladores.

Na metade do segundo milênio as armaduras e as espadas eram necessárias para intimidar inimigos e enfrentar o desconhecido mas, no início do terceiro milênio e graças à evolução do conhecimento, a população explodiu, o mundo encolheu e a razão e a inteligência passaram a ser essenciais para obtenção de sucesso. Os bons valores permanecem inalterados, assim, honestidade, sinceridade, coerência e reconhecimento possuem o mesmo conceito, porém os métodos para atingimento de objetivos exigem novas ferramentas.

Se naquela época o segredo era a alma do negócio, hoje, também a transparência é a chave para aglutinar pessoas em torno de um objetivo. Seja sincero e verdadeiro e terás um grupo de pessoas bem intencionadas a teu lado. Seja dissimulado e obscuro e estarás cercado por pessoas interesseiras e falsas. Para o Vasco voltar às origens, algumas caixas pretas precisavam ser abertas, se o presidente tivesse audácia de se expor, esclarecendo: qual será sua política de aquisição e venda de atletas (esse papo de emprestar atletas que estão fora do esquema do treinador, se desfazer de qualquer craque para ganhar dinheiro e contratar na surdina, não serve)? Qual será sua política de marketing para atrair e manter patrocínios de peso? Qual será sua política de inclusão de sócios votantes, aumentando a participação de pessoas com novas idéias e oxigenando o ambiente ultrapassado dos órgãos estatutários do clube? Sei que isso tudo passa pelo crivo de um sentimento extremamente delicado, sem o qual nenhum relacionamento de mão dupla se sustenta: confiança (no sistema gerencial do clube).

Nada melhor do que a palavra “estagnado” para definir o atual estágio evolutivo da administração do nosso clube. Talvez por isso um dos famosos bordões do falecido vascaíno Chico Anysio, na Escolinha do Professor Raimundo, explique a queda de popularidade e redução de adeptos do clube da cruz divina: o respeito nunca voltou, a confiança também não, a alegria passa longe “e o salário, ó!”.

Saudações a todos os Vascaínos!


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