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A verdade é que somos um país que não preza sua história e que, inclusive, menospreza seu passado e seus heróis. Ao contrário dos países desenvolvidos, que preservam e adoram seus ídolos, nós gostamos de ridicularizá-los e diminuir sua participação em momentos patrióticos de relevante importância. Isso faz parte de nossa herança genética, também conhecida como complexo de vira-lata. Enquanto países desenvolvidos e outros com alto grau de patriotismo, promovem verdadeiros cultos a seus cidadãos proeminentes em datas comemorativas específicas, nós nos vangloriamos dos feriados sem nos lembrarmos do significado do evento. Mais vale um dia sem trabalho do que a verdadeira importância dele. Mais vale a festa promovida pelas autoridades (de preferência gratuita) do que o ardor patriótico. Somos um país que vem perdendo sua nacionalidade, destruída pelos  escândalos diários, que parecem nos indicar que mais importante é dinheiro no bolso do que a honestidade e o respeito ao próximo. 

 

Você deve estar se perguntando o que tem a ver o desabafo deste cronista, com o Vasco da Gama? Explico: a política. A má política. A política extrapolada da esfera legislativa, judiciária e executiva, sentada no trono do CEO, ou Diretor Executivo, ou Diretor Presidente, ou, simplesmente, como ele constantemente dá a entender, “Dono” do Vasco. Temos um presidente que se iguala a um ditador e se auto-intitula “a única alternativa viável” para a sobrevivência do clube. Valendo-se da memória curta da maioria da população, no caso torcedores do Vasco, ele se especializou em escrever pequenos esquetes, alguns cômicos, outros melodramáticos,  com a intenção de desviar o foco da avaliação de sua catastrófica administração atual e, por que não citar,  das anteriores.  Ora é o “espetacular CAPPRES”, ora um campinho novo enfiado num cantinho de São Januário, ora uma declaração estapafúrdia de que se candidatará a um novo mandato, ora uma inusitada e despótica nomeação do filho para a vice-presidência de futebol, ora uma cansativa e repetida promessa de que o Vasco “vem pras cabeças em 2017”, ora uma já, também desgastada cantilena, de que a culpa pela situação financeira do clube é de uma administração opositora anterior, uma mancha incrustada em seu currículo de senhor feudal eterno de São Januário; apenas para citar as bravatas mais recentes. 

 

Não vou cansá-los repetindo centenas de promessas feitas à torcida pelo atual presidente, a maioria não cumpridas, algumas cumpridas parcialmente e muito poucas transformadas em verdade. O fato é que este senhor se especializou em manter-se no cargo usando os mesmos artifícios utilizados pelos maus políticos: promessas, com grandes pitadas de autoritarismo e como disse sabiamente o saudoso (mas não para o atual prefeito do Rio) Marques de Maricá: “Não provoques o Poder, que ele se tornará  cruel e despótico no seu desagravo”.

 

Falar da torcida organizada que é composta, na sua grande maioria de jovens sedentos por vitórias, é  importante, porque, como citei acima, a memória curta do torcedor é o ingrediente principal do enredo desta grande encenação teatral que visa, no final, manter o poder nas mãos de uma dinastia longeva. As duas administrações de seu opositor, uma relativamente bem sucedida e outra desastrosa (“dinamitando” as finanças e abrindo o caminho para o retorno), serviram para mostrar que o monarca não consegue sobreviver distante do poder absoluto e das câmeras e microfones da imprensa. Falem mal mas falem de mim, parece ser o lema eterno deste senhor que investe no discurso fácil e rancoroso, apostando na juventude de quem não vivenciou momentos gloriosos de outrora e nos tradicionais puxa-saco, para cultivar a permanência no poder supremo. Assim, são enterrados os fatos escabrosos de suas administrações anteriores, acobertados pela moral duvidosa dos dias atuais e a ética suspeita de conluios ao pé do ouvido. Por isso, prestações de contas parciais, sem a veracidade auditada e planilhas apresentadas com a intenção de mostrar que tudo está sob controle, servem para iludir o torcedor e o eleitor, enquanto acordos, dívidas e decisões autoritárias anteriores são  varridos para debaixo do tapete. 

 

Parece claro que para manter o cetro na mesma família, valem artifícios tradicionais e seculares, como traição a antigos correligionários e abertura de um hiato entre as gerações anteriores (que lembram de suas antigas presepadas) e a geração atual, composta de jovens que demonstram pouco interesse pelos fatos administrativos do passado, muito menos com a avaliação e repercussão das consequências que continuam causando efeitos prejudiciais às finanças do clube. Apostar na ignorância da geração mais nova e na morte daqueles que possuem na memória fatos desabonadores de seu passado, parece ser uma tática mais eficiente para preservar seu reinado do que esclarecer os muitos fatos obscuros do passado. Nossa sorte e esperança é que ainda existe, na geração atual de torcedores do Vasco, aqueles que exercem o direito de pensar com suas próprias cabeças, separando a emoção da realidade, privilegiando o certo e claro, repelindo o incerto e duvidoso. Nestas pessoas, que colocam o Vasco em primeiro lugar, deposito a esperança de um futuro melhor para o Vasco da Gama. Tomara que torcedores profissionais, verdadeiros parasitas,  sejam substituídos por uma nova geração de torcedores pensantes e que os seguidores e apoiadores descerebrados do ultrapassado e destemperado presidente e sua família real sejam substituídos por administradores profissionais.

 

A verdade é que o Vasco vem se transformando num clube mediano e ultrapassado, que especializou-se em meias palavras, meias reformas e meio time. São explicações superficiais sobre a administração do Clube, sem direito a questionamentos, muito menos réplicas ou tréplicas. São reformas, mudanças e alterações “meia boca” (cadê o centro de treinamento e formação de atletas? Cadê a reforma do Estatuto?). São times formados com atletas medianos e craques do passado, que não resistem a uma temporada completa. Com a eleição batendo à porta,  imagine o que nos espera. Serão realizados investimentos com intenção de ganhar a eleição ou a austeridade financeira será a tônica da administração, mesmo arriscando novo período de cobrança da torcida? O futuro dirá. 

 

Falando de futebol, não acredito que conseguiremos contratar um craque diferenciado para melhorar o rendimento geral da equipe. Acredito, sim, em contratações normais, assim como as dos demais concorrentes, e esses jogadores, ao contrário do craque que faz a diferença, terão uma sobrecarga de tarefas e responsabilidades que acarretarão uma queda no desempenho da equipe. Neste caso, caberá aos atletas que permanecerem no clube superar expectativas ou estaremos em maus lençóis, novamente. Em 2016 tivemos oportunidade de avaliar o desempenho da maioria dos muitos atletas utilizados pelo antigo treinador e concluímos que o desempenho da equipe foi proporcional ao que se esperava, em comparação a outras equipes da série B. Na série principal da competição do futebol brasileiro, minhas desconfianças superam o otimismo. Tomara que esteja errado. Torçamos por isso.

 

Estaremos, sempre, tratando dos assuntos administrativos do clube, até que se instale uma gestão  profissional no clube e sejam modernizados os instrumentos normativos e administrativos. Enquanto isso não acontece, cabe-me torcer para que um dia possamos comentar, apenas, o desempenho esportivo do clube, em todas as categorias. No momento, aproveito para desejar um 2017 de muita felicidade e muito sucesso pessoal para todos os leitores. Feliz ano novo!

S.V.


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