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Hoje vou falar sobre dois assuntos que agitaram o ambiente entre os torcedores do Vasco esses últimos dias: um foi a situação financeira e administrativa do clube, fruto de dezenas de anos de desmandos e maus tratos de seus últimos e a outra foi a saída do treinador Luxemburgo e suas consequências.

Quanto ao primeiro assunto, mais uma vez por conta de um bloqueio de verbas a receber pelo Vasco, pedido pela PGFN (Procuradoria Geral da Fazenda Nacional), justificada pelas dividas fiscais com a  União e não cumprimento de acordo administrativo celebrado e não cumprido pelo clube, nada a contestar.

Todo mundo sabe que o Vasco não paga as contas em dia há muitas décadas. Desde muitos e muitos anos atrás, décadas atrás, as diretorias do Vasco, mais precisamente os seus presidentes, não davam bola para  prestação de contas. A palavra balancete não existia no dicionário do clube. Era um parto ter acesso ao Balanço Anual do clube. A lei obrigava sua divulgação mas o governo não prestava muita atenção, fingia que não estava nem aí.

Mesmo depois, quando o negócio futebol ganhou projeção, graças aos altos valores das transações com transferências de jogadores, contratos de patrocínio e transmissão de jogos, os presidentes do Vasco sempre arrumavam um jeito de maquiar as contas e contratavam auditorias suspeitas para emitir relatórios que mais pareciam uma peça de ficção.  

Essas más gestões, de um tempo em que os sócios não se envolviam nas contas do clube e os torcedores muito menos, foram abrindo e cavando buracos cada vez mais fundos onde os dirigentes jogavam as dívidas contraídas, umas sobre as outras como um verdadeiro lixão secreto. Eram fruto de negócios mau feitos, suspeitos e confusos.

Os dirigentes não perceberam, por incompetência ou má fé, que as técnicas de administração se modernizaram e, mesmo assim, continuaram tratando o clube como uma antiga vendinha ou armazém, onde as transações eram anotadas em um pedaço de papel. Não evoluíram profissionalmente, acreditando que sua manutenção no cargo e sua perpetuação no poder dependiam mais de sua lábia do que de sua competência administrativa, abusando pessoalmente dos resultados financeiros e satisfazendo suas vaidades.

A culpa não era só dos dirigentes, os conselhos também eram ineficientes, incompetentes. Os conselhos deliberativos e fiscais de então eram dirigidos por pessoas subservientes, servis e compostos por vassalos, bajuladores do presidente.

Com o passar do tempo a estrutura que o Estatuto oferecia passava a não mais permitir uma governança moderna. A manutenção de 150 conselheiros natos, que na era romântica do clube era exemplo de reconhecimento àqueles que deram sua contribuição desinteressada ao Vasco, na era da politicagem partidária acabou sendo um campo fértil para troca de favores pessoais.

A dedicação abnegada de bons vascaínos acabou sendo avaliada não pelos atos de benemerência em prol do clube mas pela proximidade ou amizade entre os dirigentes e os conselheiros que permitia aos presidentes ampliar a possibilidade de conseguir votos a favor de suas propostas, quando necessário discuti-las coletivamente.  Eram criados verdadeiros “currais eleitorais” e grupos organizados se constituíram para tentar projetar uma, ou várias, castas que tentavam, constantemente, alcançar o poder no clube.

Nas últimas décadas esses grupos políticos não se contentaram apenas em interferir na administração do clube, alguns se lançaram a voos mais altos. Alguns aproveitaram, demagogicamente, da  oportunidade de ter acesso à grande torcida para tentar ser eleitos a cargos públicos. No ambiente político,  aproveitaram para angariar mais experiência e aprenderam, no ambiente político partidário, como se manter vivos e ativos ao redor do prato de sopa.

Com a globalização e a concentração da discussão política a nível nacional, a briga por adesão de pessoas contra ou a favor de propostas, se tornou inevitável, com todas as variantes possíveis. A verdade acabou ficando em segundo plano, num mundo recheado de fake news.

Também no Vasco, quem não está de um lado ou de outro e teima em permanecer neutro, é o primeiro a ser comido, e nem sabe por quem... Felizmente, ou infelizmente (só a história dirá), as pessoas que não escolherem um lado, serão descartadas, mais cedo ou mais tarde.

Como eu não acredito que o ambiente político carcomido, infiltrado e dominado do Vasco é propício a uma recuperação administrativa real, prefiro crer que somente uma próxima eleição que coloque na direção do Vasco uma CHAPA (e eu não estou falando de apenas um presidente) que possua apoio maciço dos sócios estatutários e um respaldo popular dos sócios torcedores, poderá dar início a uma verdadeira reestruturação do Vasco.

Você poderá perguntar: devemos aguardar o final do ano que vem para agir? Eu respondo: NÃO!

Está batendo na porta uma proposta de reforma do Estatuto. Uma Assembleia Geral de Sócios deverá acontecer até março, segundo informação do Presidente da Assembleia Geral em entrevista ao programa “A Voz do Vascaíno” de 16 de dezembro próximo passado. Lá saberemos se essa reforma é só um cala boca, uma enganação fantasiada de eleições diretas, ou uma verdadeira modernização do clube. Por enquanto estou mais tendente a acreditar na primeira opção, mas a torcida do Vasco já mostrou o que quer.

Por isso pressionemos os conselheiros que lá estão, porque uma das coisas que esses grupos sem apoio público que dominou o clube receiam é a pressão das ruas. Precisamos de um Estatuto com artigos que representem os anseios populares, e eu estou falando de populares no sentido de representar o anseio da maioria da torcida.

Por isso, uma mudança verdadeiramente honesta do Estatuto é muito importante para o futuro do Vasco. Enquanto isso, vamos nos acostumando, se já não estamos acostumados, a conviver com penhoras, ações, decisões e desmandos cometidos por pessoas, algumas que nem mais estão entre nós, e que colocaram o Vasco nessa triste situação.

Agora vamos a outro assunto. O treinador Luxemburgo foi embora e, imediatamente pipocaram as mais diversas opiniões. Pessoas chocadas com a decisão, pessoas tristes com a solução, pessoas decepcionadas, pessoas enraivecidas, pessoas consternadas pelo término da vinculação, pessoas resignadas com a quebra da relação, etc., etc., etc...

A verdade é que muitos motivos podem levar a um divórcio mas, com certeza só as partes sabem a verdadeira razão. Algumas pessoas dizem que o Vasco não cumpriu o prometido com o treinador, que era a quitação da dívida salarial com os jogadores e os membros da comissão técnica. Mas quais eram os termos deste acordo? Nunca saberemos.

Muitas lacunas surgem quando da quebra de uma relação. O ano ainda não terminou e não sabemos os detalhes das promessas feitas. Por sua vez, o treinador já firmou compromisso com o Palmeiras e o Vasco já tem novo treinador. Quanto essa proposta do Palmeiras foi atrativa para Luxemburgo para ele desistir de continuar conversando com o Vasco ou confiar no Vasco? E quando essa proposta do Palmeiras foi feita? Mesmo que tenha sido feita ontem, quem garante que o interesse foi recente e não tenha sido demonstrado antes?

Quando um clube na condição de penúria financeira em que o Vasco está, com o moral lá embaixo, fruto de dezenas de anos de administrações desastrosas e três quedas para a segunda divisão em poucos anos, o melhor que se faz é não procurar razões para justificar uma quebra de vinculo entre pessoas e a instituição.

O melhor para o Vasco é tocar o barco, apostar em Abel e aproveitar o abraço que a torcida deu no clube para tentar se reerguer e sair do fundo do poço.

Que os dirigentes, todos eles, desde os representantes da diretoria administrativa até os componentes dos Conselhos Deliberativo e Fiscal, de Benemérito e Assembleia Geral, estejam cientes que a tábua de salvação do clube foi o amor que o torcedor demonstrou este ano pelo Vasco e que tal demonstração sirva a todos para provar que amor incondicional é a última possibilidade de redenção.

Que aqueles que são responsáveis por tocar a instituição tomem vergonha na cara e assumam suas obrigações como servidores da nação vascaína. Que se conscientizem que eles trabalham para a torcida e não o contrário. Utopia, isso? Talvez, mas tenho certeza que se não perseguirmos o caminho da retidão, estaremos cavando nossa própria cova.

Por isso, que cada torcedor tire sua conclusão sobre a saída do ex-treinador, torça pelo sucesso do novo treinador e fique ciente de que o clube precisa seguir em frente. Os dirigentes passam, os atletas passam, as comissões técnicas passam mas o único que nunca desiste do clube, que nunca passa, é o torcedor.

Mais uma vez digo: precisamos ficar de olhos abertos, apoiando as boas ações, quando justas, e cobrando retidão e atuação dos dirigentes, sempre firmes na defesa dos interesses do Vasco.

Acompanhe vídeo desta postagem em meu canal no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=6tPJmhnFYgE

Saudações Vascaínas!

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