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Quando a gente chega a uma certa idade, inevitável é olhar para o passado. Muitos jovens torcedores do Vasco não conseguem entender isso. É justo quando se é novo que as lembranças se dissipem com facilidade, afinal, a pressa de crescer faz com que não se dê muita importância para as realizações de uma época que queremos deixar  para trás. Assim, uma criança quer, rapidamente, deixar de ser bebê, como um adolescente quer deixar de ser criança e um adulto deixar de ser adolescente. Daí em diante, a maturidade precede a velhice e o tempo cobra o seu preço.

Até nos transformarmos em adultos, tudo é festa. Vivemos como se a nossos pais, e só a eles, coubesse a responsabilidade de manter a máquina funcionando. Já temos identidade, CPF, escolhemos os políticos em quem votamos, podemos decidir nossa vida, mas a responsabilidade pelo nosso bem-estar, comodidade e conforto continua sendo “dos mais antigos”. Mas o tempo, repito, cobra seu preço e os anos passam e nos deparamos com a obrigação de caminhar, verdadeiramente e em todos os sentidos, com as próprias pernas. Ora perdemos entes queridos, ora nos apaixonamos, ora somos obrigados a exercer uma profissão ou emprego que nos exija tarefas e desempenhos hercúleos. Aí, vemos que, muitas vezes, estamos sozinhos na busca do sustento e da estabilidade. Nesta fase de amadurecimento, começamos a olhar para o passado, mesmo que o baú ainda seja modesto, recente e relativamente despovoado. Abrimos uma poupança onde colecionamos os resultados, alguns bons, satisfatórios, outros nem tanto. Alcançamos vitórias e derrotas e assim vamos construindo nossa identidade na vida e, como não existem duas impressões digitais iguais, também não existem duas vidas idênticas.

Se torcemos para o Vasco, olhamos para o passado e nos cobramos se valeu à pena dedicarmo-nos a esse amor incondicional. Para mim, valeu, porque vivi um Vasco de vitórias e conquistas. Lembro-me do BI da Taça Guanabara de 1977, contra o Botafogo, com dois golaços de Roberto Dinamite. Neste mesmo ano, fomos Campeões Cariocas em cima do Flamengo, numa cobrança de pênaltis, após cento e vinte minutos de um zero a zero angustiante, apesar de uma inquestionável superioridade, contra um árbitro que se recusava a marcar  falta na frente da área do urubú. Foi uma campanha na qual o Vasco perdeu apenas um jogo, entre os vinte e nove jogados. Foram apenas três empates, somando sessenta e nove gols feitos e, pasmem, apenas cinco gols sofridos (que saudade...). Guarde essa defesa: Mazarópi, Orlando, Abel (esse, que agora é treinador), Geraldo e Marco Antônio. No meio: Zanata, Zé Mario, Dirceu. Na frente: Wilsinho, Dinamite e Paulinho. Mas não dependíamos só deles, tínhamos Fernando, Gaúcho (que já treinou nosso clube) e Luiz Augusto para a defesa. No meio, para manter o pulmão a pleno vapor, tínhamos Helinho, Zandonaide e Paulo Roberto e na frente Fumanchu, Ramón e Guina mantinham o ritmo avassalador do ataque. Assim, a felicidade da Vascachaça, Vasgonçalo, Vascancela, Vascosme, Vascoelho, Vascaraí, Força Jovem, Pequenos Vascaínos, Torcida Tradicional, Vasbicão, Saravasco, Vascaé e uma infinidade de outras torcidas, foi contagiante e impulsionou o Vasco às vitórias. Conquistamos, ainda, outro título, o de maior arrecadador de renda: foram para os cofres do clube mais da metade de toda a arrecadação de todos os jogos do campeonato. Foi a maior prova de que a torcida do Vasco era gigante.

Poderia relembrar de muitas outras conquistas, satisfações, prazeres e felicidades,  que nem sempre terminavam com a obtenção de taças, medalhas ou troféus mas com trajetórias lineares e constantes, bem diferentes dessa montanha russa a que nos acostumamos atualmente. Não havia risco de queda, não porque não houvesse descenso, mas porque havia coerência e consciência de que o Vasco era um dos maiores clubes do mundo e deveria, sempre, estar disputando os primeiros lugares. Bom, mas chega de encher a paciência dos jovens vascaínos com exemplos nostálgicos e lembranças de tempos distantes... Mas, me desculpem, faço isso para sacudir a grande torcida e provocá-los para conquistar São Januário. Ainda somos grandes, sim, mesmo que os ultrapassados e mal-intencionados dirigentes e conselheiros tentem nos transformar em um reduzido grupo de apadrinhados e aduladores.

Se o Vasco se apequenou, isso é fruto de uma política ultrapassada e interesseira, que visualiza a troca de favores como única alternativa para manter-se no poder de um clube que possui a mais bela história do esporte mundial. Quando olhamos para São Januário enxergamos um belo e imaculado estádio, construído pelas mãos de um povo que doou seu dinheirinho, seu trabalho e seu amor para uma bela causa. Não imaginamos que por debaixo das arquibancadas o jogo seja outro, muito sujo e encardido e que à torcida e aos sócios, constantemente enganados, só seja reservado o lado de cima para manter cheios os bolsos daqueles falsos vascaínos que não respeitam as verdadeiras tradições. São mentirosos que apregoam, aos gritos, a falsa prerrogativa e direito de defender o clube com exclusividade. Ganhar no grito causa asco, é um despudor, uma sem-vergonhice, uma indecência, uma imoralidade, um deboche, uma ofensa que vem se tornando uma prática administrativa constante, quase uma praga, que se entranhou na política do Vasco, quase como uma maldição, um flagelo, uma desgraça.

Na minha idade não me iludo com muitas conquistas mais, mas como vascaíno de raiz, com origens na Pátria mãe, sonho contemplar, mesmo que na vida eterna, um Vasco que se reerga das cinzas, tal como uma fênix, símbolo do renascimento, a provar de que tudo que é bom, lindo, grandioso, nobre pode voltar a ser digno, decente, honrado, íntegro, justo, sério e, principalmente, honesto.

Para que a torcida não desapareça ou encolha de uma forma irreparável, cabe aos jovens e perseverantes torcedores atuais, lutar para que o mau-caratismo de alguns dirigentes e conselheiros seja defenestrado do clube, higienizando o ambiente para que os bem-intencionados que por lá estejam, continuem a fazer um bom trabalho. E eu sei que existem pessoas de boa índole, com bom caráter, inteligentes e, principalmente, competentes no corpo funcional do Vasco. Que os maus sejam sepultados (e entendam da forma que quiserem...), para os bons trabalharem.

Nossa luta continua, e se não for com novas eleições, que seja “na próxima eleição”. Se não for com uma limpeza nos quadros dirigentes, que seja com vitórias em campo que nos mantenham na primeira divisão e para isso não precisamos de maus vascaínos mas de torcedores fervorosos e amantes do clube. Torcer com amor e entusiasmo pode manter o Vasco na primeira divisão. O resto de 2018 será uma luta do amor contra o rebaixamento para que em 2019 a luta por um time melhor e uma administração limpa e transparente ressurja.

Saudações Vascaínas!

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